<i>O dono disto tudo</i>

Vasco Cardoso

Corria o ano de 1991, Cavaco liderava o Governo e as privatizações – depois de anos de conspirativa preparação – caíam de maduras, com a entrega às mãos do grande capital de sectores e empresas estratégicas do País, como era o caso do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa. Aquela que havia sido um dos principais sustentáculos do regime fascista, a família Espírito Santo, voltava assim a possuir o mesmo banco que a Revolução de Abril tinha justamente colocado, por via da sua nacionalização, ao serviço do povo português. As privatizações na banca, acabariam – com o papel activo do PS, do PSD e do CDS – por varrer todo o sector financeiro com a excepção, para já, da CGD.

O percurso que se lhe seguiu é conhecido: domínio avassalador do sector financeiro sobre a economia nacional e milhares de milhões de euros de lucros transferidos para os bolsos de accionistas e especuladores. Milhões que alguns têm o descaramento de atribuir à excelência da gestão privada, mas cuja origem está não só nas largas margens de lucros construídas à custa da exploração dos trabalhadores, dos depositantes e dos custos do crédito cobrado às famílias, ao Estado e às pequenas e médias empresas, mas também nos numerosos apoios e benefícios concedidos pelo Estado. A determinada altura, o poder e a influência de Ricardo Salgado no País levou a que o apelidassem nos círculos financeiros com o título de DDT, o Dono Disto Tudo!

Na natureza destes negócios estiveram e estão presentes inúmeras práticas fraudulentas – que no caso do BPN e de outros submergiram com as consequências que se conhecem – e que agora têm vindo a estalar por todos os lados no BES perante o silêncio cúmplice do Governo e do Banco de Portugal. A «guerra dos tronos» no seio da família Espírito Santo que entretém a comunicação social é apenas a espuma que encobre um problema bem mais profundo e cuja dimensão vão continuar a ocultar enquanto puderem.

Seria um engano pensar-se que nos restantes bancos tudo vai bem, porque não vai! Se há coisa que este processo revela é a incompatibilidade radical entre a defesa dos interesses nacionais e a propriedade privada da banca. Se há assunto que a situação no BES coloca na ordem do dia é que deve ser o povo português, de facto, o dono disto tudo!

 



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